Mãe

Mogi das Cruzes, 1994, eu tinha 8 anos de idade e meu mundo era meu bairro. Era uma tarde quente de verão, o sol rachava o asfalto, e eu vinha em alta velocidade na Ferdinando Morroni, minha rua. Minha bicicleta era daquelas médias, e dava pro gasto. Era domingo, Ayrton Senna tinha morrido, o país em prantos.

O supermercado estava fechado, fechava cedo aos domingos, uma pena, eu queria um algodão-doce, eles davam de graça aos finais de semana. E nem era pra mim, era pra minha irmã que estava doente.

A falta do algodão-doce foi algo inesperado, tive que recorrer à venda do japonês algumas quadras mais longe. Comprei uma cocada e enrolei num papel, pûs no bolso e voltei pra casa. Chegando em casa meu avô estava resmungando, ele morava na casa da frente. Eu consegui evitar que ele me visse e passei direto para a minha casa.

Houveram períodos difíceis na minha infância, e esse era um deles. A minha casa era bagunçada, não conseguíamos mantê-la arrumada por muito tempo, e nesse dia ela estava ao avesso.

Minha mãe tentava dar comida pra minha irmã, que estava com febre e não queria comer, ela tinha 4 anos. Minha mãe não deixou eu dar a cocada pra ela, mas cedeu ao ver que ela sorriu ao ver o pequeno agrado que eu trazia.

Um pouco depois minha mãe foi no médico com ela, pois estava piorando. A falta de dinheiro era algo constante, mas nos virávamos, minha mãe era uma guerreira, uma guerreira de 25 anos de idade.

Estava sentado no quintal vendo as pipas quando as vi chegando de volta, minha mãe com a minha irmã enrolada no colo. Apesar de tudo ela ainda olhou pra mim com aquela ternura que só as mães conseguem ter e perguntou se eu estava bem.

Me lembro de entrar na cozinha e ficar em pé no meio daquela bagunça que estava a casa e ver minha mãe sentar e colocar minha irmã no sofá. Depois de algum tempo em silêncio eu a vi chorar. Não era a primeira vez que a via chorando, mas essa foi das mais difíceis de ver.

Me senti impotente. Que vida cruel e injusta vivíamos, eu senti que tinha que fazer alguma coisa e decidi que começaria a ajudar naquele momento. Naquele dia eu lavei toda a louça que estava suja. Foram pelo menor três horas lavando louça, e ainda varri a cozinha inteira.

No dia seguinte o remédio fez efeito e minha irmã melhorou. Isso aliado à cozinha limpa animou a minha mãe, que fez até batata frita no almoço.

Comemos em silêncio, apenas o som da televisão no ambiente, Picapau aprontava com o Zeca Urubu.

Eu não queria que aquele momento acabasse, e sem dúvida, hoje, 20 anos depois, vejo que aquilo me fez mais forte, e sem dúvida, não há escola que ensine isso.

Eu não sei o que seria de mim sem a minha mãe, que mesmo nos momentos difíceis me fez uma pessoa melhor. Orgulho é a palavra que define o que sinto por ela.

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2 thoughts on “Mãe

    1. Obrigado por ler. Sem dúvida poder lembrar de detalhes da vida como estes e saber que no final ficou tudo bem é uma dádiva. O carinho é recíproco. ❤

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