Gatos

Quando criança eu não suportava viver com o fato de existirem coisas inexplicáveis. Eu queria respostas, era sedento por explicações. Eu nasci um menino de exatas e sempre quis saber como tudo funcionava desde criança. Sabe o Zequinha do Castelo Rátimbum? Pois então, eu era pior.

Eu sempre fui muito revoltado, como assim não sabemos como as coisas funcionam? Podemos ou não viajar no tempo? O que existia antes do Big Bang? Alienígenas existem? Como pode o número Pi ter infinitos números e ainda assim não repetir uma sequência uma única vez? O que é a conciência humana?

Não me lembro se li isto em algum lugar ou se foi eu mesmo que criei um modo extraordinário de explicar a mim mesmo que existem coisas que somos simplesmente incapazes de entender, e usando gatos. Sim, gatos!

Imagine uma sala  com um sofá, no sofá, um humano e seu gato. O humano assiste ao futebol, enquanto faz carinho no gato. O gato por sua vez, sabe que o humano presta atenção no aparelho iluminado, e que o carinho em seu corpo está sendo feito de modo automático, mas ao menos está quentinho, então vale a pena permanecer ali. Do contrário, o gato sabe que se ele pôr-se na frente da televisão, o humano lhe dará atenção, mesmo que seja uma bronca, mas atenção. O humano tem consciência que ali é a sua casa, que o futebol é de um campeonato sendo jogado em outro local. Ele tem consciência de como funciona a televisão, que a casa se encontra num bairro X, numa cidade Y, num país Z, num continente A, num planeta B, num sistema solar C, numa galáxia D. Ele sabe que ao tocar o telefone, outra pessoa estará do outro lado efetuando uma ação com o intuito de se comunicar com ele. Ele sabe que aquele pacote de pipoca que ele come foi estourada num microondas que por meio de ondas agitam moléculas de água, fazendo com que o alimento se esquente e quando a água contida dentro do grão do milho se agita, a pressão aumenta tanto fazendo com que o milho cozinhe e estoure. Além disso, sabe que aquele pacote de pipoca o custou X, que é Y% do seu salário, e que foi produzido por outras pessoas, provavelmente numa cidade afastada dos grandes centros por ter um sistema tributário mais atraente.

Já o gato, coitado, continua recebendo seu carinho. Ele também sabe que aquele apartamento é a sua casa, aliás, todo dia é uma luta, ele precisa estar sempre atento para poder defender aqueles gatos gigantes que o pagam por seus serviços com comida e água fresca. Todos os dias outros animais como pássaros, ratos e insetos tentam atacar o território e um breve deslize pode ser fatal. Ele não sabe qual o bairro que mora, mas sabe os horários da rotina do humano. Sabe, também, que se ficar embaixo da mesa pela manhã, logo depois do humano sai da salinha que ele se tranca pra se molhar inteiro sem motivo, pode ganhar pedaços gostosos de comida humana pois o humano sempre derruba ao preparar o café da manhã. O gato sabe que precisa se manter limpo, que precisa afiar as unhas, apesar do humano sempre miar alto quando ele as afia no sofá.

Como podem ver, ambos possuem perspectivas e percepções totalmente diferentes. Cada um dentro da sua capacidade vai mais ou menos longe em uma curva de conhecimento.

Evidente que o humano possui um conhecimento de como funcionam as coisas absurdamente mais vasto que o gato, apesar de isso não representar que um é mais inteligente que o outro, afinal, apesar de tudo isso somos nós que estamos destruindo o mundo.

Mas muito além do conhecimento das coisas, existe também a percepção de o que somos. Temos a noção de quem somos e, apesar de limitada, de onde estamos. Gatos também, mas não tão elevada quanto a nossa.

Agora imagine um ser vivo Y, que na escala de inteligência, está um passo na frente do humano, adicionando ao seu nível a mesma diferença entre o humano e o gato.

Untitled

Imagine a quantidade de coisas que estão à nossa frente e que simplesmente não entendemos por não sermos capazes. Imagine a noção imensamente mais detalhada que o Ser vivo Y possui do universo, e de como funcionam as coisas.

Por muito tempo me tranquilizei bastante pensando assim, mas confesso que ultimamente eu queria muito que fossemos, ao menos por um intante, um pouco mais capazes.

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