O dia que eu fui parar no Sudão

Eu peguei um táxi, estava longe de casa e o metrô ainda estava fechado. Era madrugada e fazia frio em Londres e eu também estava mal agasalhado. O taxista era daqueles que não conversam muito, gostei, pois queria cochilar um pouco.

O carro era grande e confortável e o aquecedor estava no máximo. Aproveitei pra me acomodar e dormir. Antes de fechar os olhos observei por uns instantes as luzes passando. Londres é linda – pensei – mas quero chegar logo em casa.

Finalmente consegui dormir, mas acordava de tempos em tempos preocupado com o caminho que o taxista fazia. Até que senti um calor muito forte, a umidade aumentou repentinamente e apaguei de vez.

Acordei com uma claridade que senti antes mesmo de abrir os olhos. O taxista não estava no carro, num primeiro instante pensei que havia ocorrido um acidente. Nenhum sinal dele e estávamos numa estrada de terra.

O dia já estava claro e muito calor. Ao sair do carro meu estômago revirou, eu estava num deserto. O carro estava limpo por fora e as rodas intactas, ainda úmidas com a chuva londrina. Também não haviam rastros de pneu. Era como se o carro tivesse sido posto ali.

Voltei pro carro e todas as minhas coisas estavam lá. Carteira, celular e chave. Imaginei que havia sido sequestrado, mas não havia sinal de violência em meu corpo e nem sentia dores. Além disso, meus pertences permaneciam intactos.

Depois de esperar por um certo tempo resolvi andar pra ver se descobria onde estava. Meu celular não funcionava, sem sinal e o GPS estava maluco, estava dizendo que eu estava na África!

Eu andei por 2 horas e não havia sinal de vida, aquela era uma região que eu nunca havia conhecido, aliás não imaginava que haviam desertos no Reino Unido. Vi até uma serpente atravessando a estrada, era linda.

O calor e a sede fez com que eu começasse a imaginar coisas, eu ria alto com a possibilidade daquela aventura ser um sonho.

Cheguei no ponto alto de um morro pra tentar ver os arredores e identificar um posto de gasolina ou outro lugar que eu pudesse pedir ajuda. Eu identifiquei um vilarejo e decidi que aquela era a melhor opção.

Chegando no vilarejo as placas da ruas estavam todas em árabe, mas haviam algumas coisas em ingles.

De um senhor que estava passando, apesar de falar muito pouco inglês, que eu recebi a derradeira verdade: eu estava em Wad Rawah, no Sudão, África.

Ele me disse que pra sair do país eu deveria ir até a capital, Khartoum. Uma passagem de ônibus para a capital do país me custou 50 centavos de libra. Haviam umas crianças brincando em frente à rodoviária, me perguntavam de onde eu era.

O ônibus levou 2 horas pra chegar na capital, que cidade linda. Desci no terminal rodoviário, que ficava entre o estádio e a estação de trem. O aeroporto internacional não era longe então resolvi ir à pé.

A cidade possui um rio, o Nilo Azul. Um rapaz numa lanchonete me contou que o Nilo é formado pela união deste rio com o Nilo Branco. Eu fiquei feliz, o Nilo é o maior rio do mundo e eu estava ali, na beira dele, comendo falafel.

No aeroporto, o vôo mais próximo para Londres era pela Qatar Airlines, com escala em Doha. 500 libras esterlinas a menos na minha vida – pensei. Mas era isso ou morar pra sempre naquele lugar. O vôo saía 4 horas depois e foi bem confortável até. Apesar de que foram mais de 12 horas de vôo.

Londres estava úmida também, mas o ar frio continuava. Cheguei em casa dois dias depois que peguei aquele táxi. Foi bom poder finalmente descansar.

Algumas semanas depois eu fui no mesmo bar, e ao sair e procurar um táxi eu vi o mesmo taxista parado do outro lado da rua esperando passageiros. Eu sorri, e fui pro ponto de ônibus.

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